Revista
Veja - Edição 1856 - 2 de junho de 2004
Especial
O
menu que prolonga
a juventude
A
medicina constata que certos alimentos
previnem e até ajudam a curar
doenças.
Além disso, uma boa dieta pode atrasar
o processo de
envelhecimento
em até vinte anos
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Monica
Weinberg
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A ciência dos
alimentos dedica boa parte de suas pesquisas para identificar comidas que fazem
mal à saúde. Há muito se sabe, por exemplo, que gordura bloqueia as artérias e
carne vermelha em excesso é ruim para o coração - sem falar nos recém-condenados
carboidratos, os mais novos vilões da obesidade, carro-chefe de males diversos.
Na outra ponta, há as pesquisas que verificam quais são os alimentos "bons para
a saúde". Frutas, verduras e legumes, em geral, fazem parte dessa cesta há
décadas. Agora, especialistas começam a descortinar uma terceira frente sobre a
qual quase nada se sabia até a década de 90: os alimentos funcionais. Eles vão
além dos "saudáveis", porque, mais do que nutrir, fornecem ao organismo
substâncias que auxiliam na prevenção e até no tratamento de doenças. Em pouco
tempo, várias descobertas animadoras foram feitas. Estudos recém-divulgados
autorizam afirmar que uma dieta funcional - ou seja, baseada em alimentos não só
saudáveis, mas especificamente indicados para a prevenção de males - chega a
reduzir em até 70% o risco de alguns tipos de câncer e em 80% as enfermidades do
coração, no caso de indivíduos que não fumam e que praticam exercícios
regulares. "A dieta saudável deixou de ser aquela que não faz mal à saúde", diz
o americano
O médico americano
Michael Roizen vai mais longe. Fundador de um dos mais respeitados centros de
estudo da saúde e do metabolismo humano, o RealAge Institute, ele defende que a
adoção de uma dieta específica, combinada a bons hábitos, ajuda a desacelerar o
processo de envelhecimento. Mais que isso: pode rejuvenescer uma pessoa em até
vinte anos (confira o impacto que a dieta e os
hábitos alimentares têm sobre a sua idade no
teste). Roizen é autor do best-seller Idade Verdadeira, que vendeu mais de 3,5
milhões de cópias e foi traduzido em 22 idiomas. "Rejuvenescer", para Roizen,
não quer dizer experimentar milagres como o sumiço repentino de rugas. Com base
num cálculo que leva em conta dados epidemiológicos e estatísticas de
longevidade, ele criou uma taxa de risco para calcular o peso dos hábitos
alimentares sobre a saúde de uma pessoa. Dependendo desse resultado, ela pode
estar sujeita aos mesmos riscos e doenças que alguém mais jovem ou mais velho -
daí o conceito de "idade biológica" ou "real", desenvolvido pelo médico, que
independe da cronologia. Ao longo de cinco anos, Roizen e
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Fotos Claudio Rossi |
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Academia
de ginástica (acima) e o
hospital Incor, em São Paulo: alimentos funcionais usados para melhorar a
forma física e prevenir doenças |
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O interesse pelos
benefícios que os alimentos podem trazer à saúde é antigo. Quatro séculos antes
de Cristo, o grego Hipócrates, considerado o pai da medicina, já apregoava: "Faz
da comida o teu remédio". Na Antiguidade, muito se especulava sobre o poder
curativo de plantas como o alho (veja
quadro). Um papiro egípcio de
Outras práticas
aprovadas pela experiência ganharam recentemente a chancela da ciência. Na
década de 60, intrigava cientistas o fato de gregos e italianos - notórios
apreciadores de uma boa e farta mesa - sofrerem menos de doenças cardíacas e
terem expectativa de vida acima da média européia. A partir do estudo dessas
populações, concluiu-se que um fator determinante para a longevidade de gregos e
italianos era a dieta: a culinária mediterrânea é rica em azeite e nozes, por
exemplo, dois poderosos redutores do LDL, o colesterol ruim. Também da
observação da população na França nasceu o interesse científico pelo vinho
tinto. Apesar de os franceses terem o hábito de comer queijo e manteiga a
granel, eles conseguiam manter baixos níveis de doenças cardíacas. O fenômeno
ficou conhecido como "o paradoxo francês". Um estudo conduzido pela Universidade
Harvard demonstrou que um pigmento encontrado na casca das uvas vermelhas, os
flavonóides, tem dupla função no que diz respeito à proteção do coração: aumenta
as taxas do bom colesterol e ajuda a prevenir o enrijecimento das
artérias.
Hoje, o vinho já
exibe status oficial de redutor de doenças cardíacas - é prescrito por entidades
como a respeitada American Dietetic Association e recomendado por nutricionistas
de hospitais como o da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. O mesmo
ocorreu com a aveia. Testada e aprovada em uma série de pesquisas, ganhou o selo
de redutora de doenças cardíacas pela Food and Drug Administration, o órgão
responsável pelo controle de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos. O aval
da ciência às propriedades protetoras e rejuvenescedoras de alimentos fez com
que muitos deles passassem a freqüentar os bloquinhos de receitas médicas. No
Brasil, o cardiologista Protásio da Luz, do Instituto do Coração (Incor),
responsável por uma pesquisa sobre o efeito dos flavonóides no coração,
recomenda o consumo de suco de uva e vinho tinto aos seus pacientes,
"excetuando-se no caso do vinho, é claro, os que têm tendência ao alcoolismo",
diz. Na França, a bebida chega a ser servida em hospitais, em substituição ao
tradicional suco de laranja, até há pouco tempo obrigatório nas bandejas dos
doentes. Na escalada do vinho em direção ao status de "quase-remédio", a dose
recomendada pelos organismos de saúde aumentou progressivamente. De três taças
por semana, passou a uma por dia.
Os alimentos
funcionais também já foram incorporados ao dia-a-dia de alguns dos principais
hospitais brasileiros. Por meio de uma cartilha elaborada pelo Centro de
Medicina Preventiva do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, pacientes
aprendem que soja, azeite, suco de uva, chá verde e sardinha, por exemplo, são
poderosos aliados na prevenção de males cardíacos. No Incor, em São Paulo, itens
como carne vermelha, leite integral e manteiga - servidos até uma década atrás
aos doentes - perderam espaço para peixes, leite de soja e azeite. A
popularidade dos alimentos funcionais não está restrita à comunidade médica. A
academia de ginástica Companhia Athletica, em São Paulo, contratou uma
consultoria especializada em nutrição funcional (sim, esse já é um ramo de
atuação entre especialistas), para incorporá-la ao bufê do seu restaurante. O
novo menu ganhou saladas à base de castanhas e grãos de soja, molhos que levam
azeite e semente de linhaça e vitaminas de frutas batidas com leite de soja.
Segundo os nutricionistas, quem pratica atividade física e está preocupado com a
boa forma vai encontrar nesses alimentos um aliado para prevenir lesões
musculares, fadiga, stress, acne e envelhecimento.
A indústria já
percebeu que está diante de uma mina de ouro e começa a investir pesado na
tentativa de reproduzir em laboratório as propriedades benéficas dos alimentos,
sintetizadas na forma de sucos, sopas e até sorvetes. O mercado mundial de
funcionais industrializados, que só neste ano deve faturar algo próximo de 50
bilhões de dólares, cresceu 60% nos últimos cinco anos. A líder no ramo é a
empresa holandesa DSM, que já colocou nas prateleiras européias, entre outros
itens, balas de catequina - o fitoquímico presente no chá verde que ajuda a
reduzir o risco de tumores malignos. A empresa fabrica ainda mais de trinta
produtos à base de licopeno, substância que auxilia na prevenção do câncer de
próstata e é encontrada em abundância no tomate, uma das vedetes da categoria
dos funcionais.
Estudos conduzidos
por Michael Roizen apontam que a ingestão semanal de dez colheres de molho de
tomate ajuda a reduzir em até 50% o risco de onze tipos de câncer, entre eles os
de esôfago e próstata.
Qualidades
atestadas, os alimentos funcionais de nada servem, alertam especialistas, se: 1)
não forem consumidos com regularidade - como os remédios, só têm efeito no
combate às doenças quando ingeridos nas quantidades adequadas - e 2) a dieta
como um todo não for saudável. É inútil empanturrar-se de aveia no café-da-manhã
e devorar hambúrgueres com refrigerante no almoço. "A fórmula ideal para
prevenir doenças com o auxílio dos alimentos é combinar na dieta o maior número
possível de substâncias benéficas", diz o médico
O entusiasmo dos
cientistas pelos poderes dos alimentos funcionais pode ser medido pela magnitude
de uma pesquisa que começa a ser desenvolvida pelo World Cancer Research Fund,
órgão internacional especializado no estudo do câncer. Na semana passada, o
instituto anunciou a largada de um megaprojeto que pretende ampliar em escala
inédita o conhecimento sobre o impacto dos alimentos no combate à doença. O
trabalho vai envolver cientistas dos melhores centros de pesquisa do mundo.
Divididos em grupos, cada um se dedicará a desvendar a contribuição que os
alimentos podem dar à prevenção de um determinado tipo de câncer. O Word Cancer
Research não é o único órgão interessado no tema. Neste momento, sob os
microscópios de pesquisadores de todo o mundo, estão cogumelos, alcachofras,
canela, chocolate e curry, por exemplo - todos potenciais aliados na prevenção
de males diversos. No Brasil, o Incor vai inaugurar em breve um núcleo de
estudos exclusivamente voltado para pesquisas com café. Desconfia-se que a
bebida pode ajudar a evitar doenças cardiovasculares, a causa número 1 de mortes
no Brasil e no mundo. A fonte da juventude e da longevidade, quem diria, está
logo ali, na sua cozinha.
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