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Especial O
perigo real
Descoberto
o maior inimigo do coração: as placas moles de gordura. Elas
não causam sintomas, não aparecem nos exames mais comuns e são
responsáveis por 70% dos infartos
 Anna
Paula
Buchalla
A
cardiologia passa atualmente por uma reviravolta de conceitos.
Talvez seja uma das maiores guinadas de sua história. Não se via
nada tão radical desde 1912, quando o médico americano James Bryan
Herrick descreveu pela primeira vez o processo desencadeador do
infarto. Até pouco tempo atrás, tinha-se por certo que o grande
responsável pela morte do músculo cardíaco era a formação de uma ou
mais placas duras na parede das artérias coronárias. Essas placas,
formadas por cálcio, colesterol e outras gorduras circulantes,
bloqueariam o fluxo de sangue para o coração, ocasionando o infarto
agudo do miocárdio. A descoberta que está revolucionando a medicina
cardíaca mostra que essas placas duras são responsáveis por uma
porção pequena dos infartos - cerca de 30%. A grande maioria deles,
70%, é causada por um processo totalmente diferente, mais complexo e
invisível. Nesse processo, placas moles, formadas basicamente de
gordura, se rompem, desencadeando um engarrafamento bioquímico
dentro da artéria coronária. Esse engarrafamento produz um coágulo e
é ele que interrompe o fluxo de sangue no momento crucial do ataque
cardíaco. É uma mudança e tanto na compreensão do infarto e no seu
tratamento.
Há cerca
de cinco anos, as investigações do cardiologista Steven Nissen,
diretor da Cleveland Clinic, começaram a derrubar o paradigma até
então aceito integralmente de que as placas calcificadas eram o
único agente do infarto. Com base no antigo paradigma, todos os
métodos cirúrgicos de tratamento da obstrução da artéria se
assemelhavam ao trabalho de um desentupidor de canos. Era preciso
sempre revascularizar a área atingida pelas placas duras. Agora, os
médicos do coração estão diante de um desafio mais
complexo.
Diferentemente
do que acontece com as placas duras, as moles não comprometem a
irrigação sanguínea do coração. Pior: elas não causam sintomas e são
imperceptíveis pelos exames convencionais, como o ecocardiograma, o
cateterismo ou o teste de esforço cardíaco. Sua vítima não sente
nada até o momento em que é surpreendida pelo ataque. Ao contrário
das obstruções duras, as placas moles ficam dentro das paredes das
artérias, mas não obstruem o canal por onde o sangue passa. Se
fossem estáveis não trariam dano algum à saúde. Infelizmente, as
placas moles são revestidas por uma membrana muito frágil, que pode
estourar de uma hora para outra. Quando isso acontece, as células de
gordura rompem a parede atrás da qual estavam escondidas e
misturam-se ao sangue juntamente com as células do sistema
imunológico, que já estavam lá. Forma-se, então, um coágulo, que
interrompe a chegada do fluxo sanguíneo ao coração, causando o
infarto. Quem já não ouviu o caso de uma pessoa que infartou de
repente, sem nunca ter dado indício de que sofria do coração e cujos
exames apontavam para a mais absoluta normalidade? Pois é, agora se
sabe o motivo da surpresa: as placas moles.
Essa é
uma mudança revolucionária na cardiologia, algo comparável no campo
da medicina gástrica à descoberta, feita há cerca de dez anos, de
que a causa mais freqüente de úlceras gástricas é a bactéria
H. pylori. Com a nova
informação, a cirurgia que retirava quase metade do estômago foi
substituída pelo uso de antibióticos. Outro exemplo mais recente é o
da reposição hormonal. Desde a década de 60, o uso de doses extras
de hormônio por mulheres na pós-menopausa era tido como uma das
armas mais eficazes na prevenção a infartos, derrames e câncer de
mama. Em 2002, o maior estudo já feito sobre o assunto teve de ser
interrompido antes do prazo. Ao contrário do que se defendeu por
anos a fio, a terapia de reposição hormonal está relacionada a um
aumento nos riscos de distúrbios cardiovasculares e tumores malignos
de mama.
O
impacto provocado pela descoberta das placas moles já é grande e não
pára de crescer. Ela põe em xeque muitos dos procedimentos tidos
como padrão na cardiologia - tanto na área da prevenção quanto na do
tratamento. A grande transformação ocorre, sobretudo, em relação aos
procedimentos invasivos (veja
quadro). Pelo modelo antigo, e ainda
vigente na maioria dos hospitais, se um paciente de 40 anos,
saudável, sem nenhum sintoma de doença cardíaca, se submete a um
eletrocardiograma e o teste indica uma pequena isquemia, ele é
encaminhado para um teste de esforço com cintilografia. Caso o
diagnóstico seja confirmado, recomenda-se que ele faça um exame mais
minucioso, o cateterismo. Nesse procedimento, um cateter é colocado
pela virilha ou pelo braço do paciente e levado até o coração. As
imagens fornecidas pelo equipamento mostram ao médico a saúde das
artérias. Realizado com bastante freqüência, o cateterismo só serve
para identificar as placas duras de gordura. Ou seja, as moles -
mais comuns e perigosas - passam despercebidas. Além disso, o
cateterismo é um procedimento invasivo e como tal oferece riscos,
por menores que sejam.
Já pela
nova cartilha da cardiologia, antes de ser submetido ao exame, o
mesmo paciente deve primeiramente passar por uma avaliação clínica
de risco cardíaco, que leva em conta fatores como idade, cigarro,
diabetes, pressão arterial, colesterol. Também são pedidos exames
que indicam inflamação nas artérias. A partir dela, estima-se a
probabilidade de uma pessoa ter um problema no abastecimento
sanguíneo do coração. Se esse risco for considerado moderado, ele
não será encaminhado para nenhum teste invasivo. O médico o
convidará a adotar hábitos de vida mais saudáveis. Pode ser também
que lhe sejam prescritos um comprimido de aspirina por dia, como
forma de afinar o sangue, e uma dose de estatina, remédio usado
originalmente para combater o colesterol alto, mas que se mostrou
eficaz na redução das placas de gordura - principalmente as moles. E
só. Tanto a aspirina quanto as estatinas têm também efeito
antiinflamatório, o que ajuda na prevenção do infarto. Ainda que o
risco de um paciente seja considerado alto, o cateterismo só será
recomendado se, durante a realização de um teste de esforço, por
exemplo, o médico notar a existência de comprometimento já instalado
do músculo cardíaco.
A
descoberta das placas moles deve reduzir o número de procedimentos
invasivos destinados ao tratamento até de pacientes que já sofreram
infarto (veja
quadro). Os principais deles são a
angioplastia e a cirurgia para colocação de ponte de safena ou
mamária. No primeiro, os médicos utilizam um cateter com um pequeno
balão na extremidade. No local da obstrução, o balão infla e esmaga
a placa de gordura contra a parede da artéria, liberando o fluxo
sanguíneo. Em seguida, o balão é retirado. Existe também a
angioplastia com stent, em que uma espécie de mola, deixada no local
da obstrução, mantém o caminho livre para o sangue chegar ao
coração. Quanto às safenas e mamárias, elas promovem a
revascularização do coração ao criar rotas alternativas para o
sangue. O problema é que nenhum desses procedimentos evita a
ocorrência de novos infartos ou reduz o risco de morte por problemas
cardíacos. Por quê? "Porque nenhum deles é capaz de destruir as
placas moles", diz o cardiologista Otávio Rizzi Coelho, presidente
da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo. A diminuição da
prescrição dos procedimentos invasivos será, aliás, um dos
principais temas de um congresso previsto para acontecer em maio, em
São Paulo, e que reunirá os mais importantes cardiologistas
brasileiros.
Estão
para ser publicados na edição de maio do Journal of the American College of
Cardiology, uma das mais respeitadas revistas médicas do
mundo, os resultados de um estudo conduzido pelo cardiologista Whady
Hueb, do Instituto do Coração (Incor), de São Paulo. A pesquisa do
doutor Hueb surgiu de uma experiência do dia-a-dia. Como alguns de
seus pacientes tinham muito medo de entrar numa sala de cirurgia, o
médico achou por bem acompanhá-los apenas com tratamento clínico. Em
outras palavras, com remédios. Ao mesmo tempo, comparou o
comportamento cardíaco dessas pessoas com o daquelas que se
submetiam a dois procedimentos invasivos, a angioplastia e a ponte
de safena ou mamária. Hueb avaliou a incidência de infarto, morte e
necessidade de nova intervenção cirúrgica nos três grupos. Depois de
quatro anos de acompanhamento, o estudo mostrou que a incidência de
infarto e de morte foi praticamente semelhante nos três grupos. Ou
seja, nenhuma terapia se mostrou superior. Isso reforça a convicção
de que a maioria das obstruções não precisa ser tratada de modo
invasivo. "Esse estudo é a prova de que para os pacientes vítimas do
acúmulo de placas moles o grande benefício vem dos remédios", diz
Hueb.
É bom
que se frise que os procedimentos invasivos continuam a ser
imprescindíveis em inúmeros casos.
Uma angioplastia ou ponte de safena é necessária
para melhorar a qualidade de vida de pacientes vítimas de angina
crônica (dor no peito) ou de comprometimento sério das funções
cardíacas - como aquela que leva à falta de fôlego ao subir dois ou
três lances de escada. Não se discute também a superioridade dos
procedimentos invasivos em pacientes de urgência - aqueles vítimas
de dores agudas, mas não contínuas (anginas instáveis), ou os que
estão em processo de infarto. O que se mostra agora é que várias
dessas intervenções estão sendo feitas desnecessariamente.
"Em países
da Europa e no Canadá, o número de procedimentos
invasivos é bem menor", afirma o cardiologista Raul Santos, do Incor
e do Hospital Albert Einstein. "O Brasil, assim como os Estados
Unidos, ainda é um dos países que mais fazem cateterismo em
pacientes coronarianos." A tendência é que esse cenário comece a
mudar daqui para a frente.
A grande
maioria dos exames de diagnóstico não detecta a presença de placas
moles, escondidas dentro das paredes, porque se atém a medir o
volume de sangue que corre pelas artérias. Quando é verificada uma
obstrução, isso significa apenas que ali existe uma placa dura. A
única máquina capaz de visualizar placas moles é a de
ultra-sonografia intravascular. Enquanto os tradicionais métodos de
diagnóstico por imagem mostram somente o interior das artérias
coronárias, esse exame registra também as várias camadas que compõem
a parede das artérias, nas quais as placas moles estão alojadas.
Mas, por ser muito cara, a ultra-sonografia intravascular não pode
ser recomendada em larga escala.
Diante
dessa impossibilidade, a saída para flagrar a formação de placas
moles é verificar dois marcadores. O primeiro é a proteína C-reativa
ultra-sensível, ou PCR, que mede a inflamação no sangue. "Como a
placa mole é mais inflamada, quanto maior o índice de inflamação
medido no sangue do paciente, maior a probabilidade de ele ter
placas moles", diz o cardiologista Raul Santos, um dos maiores
especialistas em medicina preventiva do Brasil. O outro marcador é a
quantidade de cálcio nas artérias, perceptível por meio de
tomografia computadorizada. A concentração dessa substância indica
acúmulo de gordura e, assim, a possibilidade de ocorrer um
entupimento. Apesar de o exame avaliar as placas calcificadas, ou
duras, ele acusa indiretamente a presença de placas moles - em
geral, quem tem excesso de placas calcificadas costuma apresentar
também grande quantidade de placas moles.
A boa
notícia é que a maioria dos fatores responsáveis pela formação das
placas moles já está identificada. O colesterol ruim é um deles.
Para combatê-lo, as farmácias dispõem das estatinas. Com a
capacidade de reduzir em cerca de 40% os níveis de LDL, as estatinas
são o remédio mais vendido no mundo. Os novos estudos clínicos não
só mostram o poder das estatinas em reduzir as placas moles como
também a
sua eficácia no sentido de estabilizá-las, ou seja,
evitar que elas se rompam. Para prevenir a formação das placas, elas
são igualmente importantes e já são receitadas para qualquer pessoa
que tenha risco de infartar. Em geral, são pessoas com histórico
familiar de doença coronária, fumantes, hipertensas ou diabéticas. O
LDL é o principal ingrediente da placa mole. Na outra ponta do
processo está o HDL, o bom colesterol, que remove o LDL do sangue e
o transporta até o fígado, onde será metabolizado. Ou seja, quanto
mais HDL no organismo, melhor. E, quanto menos LDL, melhor ainda.
Recentemente, os grandes laboratórios que fabricam estatinas se
debruçaram em pesquisas que comprovassem os benefícios de reduzir o
LDL o máximo possível. É o caso de um trabalho recém-publicado no
The New England Journal of
Medicine, uma das mais respeitadas revistas científicas
americanas. A partir desses resultados, alguns médicos passaram a
defender como desejável um nível de LDL abaixo de 100 miligramas por
decilitro de sangue, entre 60 e 70. Atualmente, o desejável é que se
situe entre 100 e 129 miligramas. Outros médicos, no entanto, acham
esses parâmetros discutíveis, já que, para atingi-los, muitos
pacientes teriam de aumentar demasiadamente as doses diárias de
estatinas, que podem causar efeitos colaterais no fígado e nos
rins.
Para
manter um nível adequado de bom colesterol no sangue, uma dieta
livre de gorduras saturadas já é um começo. Num futuro bastante
próximo, os pesquisadores acreditam que haverá medicamentos
específicos para aumentar o HDL. No início do mês, um trabalho
divulgado pelo mesmo The New
England Journal of Medicine revelou os primeiros
resultados de um novo remédio desenhado exclusivamente para
incrementar os níveis de HDL. O medicamento torcetrapib foi testado
em dezenove pacientes com baixas taxas do colesterol bom durante um
mês. Ao término dos trabalhos, os pesquisadores americanos
concluíram que o remédio aumentou em 50% a quantidade de HDL. Alguns
desses pacientes receberam também um tipo de estatina, a
atorvastatina. Nesse caso, o aumento do colesterol bom foi ainda
maior - 60%. Uma outra fonte promissora é a do HDL sintético
(veja
quadro). Além do
LDL alto, os outros principais fatores que levam à formação e à
explosão da placa mole são a pressão alta e as infecções
bacterianas. A pressão alta causa turbulências no sangue que
danificam as camadas finas das artérias, facilitando o depósito da
gordura. Já uma infecção bacteriana, como a gengivite, pode causar
inflamações que desestabilizam as placas, levando-as ao
rompimento.
Ao
contrário do que se acreditava, as placas de gordura, especialmente
as moles, são muito suscetíveis a tratamentos agressivos,
principalmente. O acúmulo delas dentro da parede das artérias é um
processo que leva anos. Mas podem ser destruídas (ainda que
parcialmente) em pouquíssimo tempo.
Os estudos mais recentes mostram que terapias
pesadas à base de estatinas reduzem o tamanho da placa mole em até
80%. E isso, muitas vezes, em apenas um mês.
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As
descobertas do doutor
Nissen
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AP
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POR
DENTRO DAS ARTÉRIAS O
cardiologista americano Steven Nissen foi o
primeiro a identificar a existência das placas
moles
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O
nome por trás das novidades mais faiscantes no campo da
cardiologia é o do médico americano Steven Nissen. Um
dos diretores da Cleveland Clinic, centro de referência
mundial em tratamento de doenças cardíacas, ele é autor
de mais de 200 artigos publicados em
revistas científicas. Uma de suas
descobertas é a visualização das placas moles de gordura
por meio de ultra-sonografia intravascular, equipamento
que ajudou a inventar, e a conseqüente verificação de
que são elas, e não as placas duras, as grandes vilãs
dos infartos. O equipamento é capaz de mapear não só o
que acontece dentro, mas também fora das artérias
coronárias. Antes dele, nenhum exame conseguia tamanha
precisão. "Conhecíamos apenas a ponta do iceberg. Agora
sabemos que a maior causa dos infartos se escondia na
parte submersa", diz Nissen.
Uma
outra pesquisa conduzida pelo americano mostrou que, em
se tratando de LDL, o mau colesterol, menos e menos é
sempre melhor. Ao comparar dois dos medicamentos à base
de estatinas vendidos no mercado, e praticamente dobrar
a dose de uma delas, sua equipe
conseguiu reduzir o colesterol dos pacientes estudados a
níveis baixíssimos. O resultado: 16% menos infartos no
grupo das doses mais altas. Em alguns casos, houve
redução da placa de gordura nas artérias dos pacientes,
como revelaram as imagens do ultra-som intravascular.
"Essa é a evidência mais forte de que o tratamento
agressivo com as estatinas ajuda a remover algumas
placas das coronárias", afirma.
Nissen
também foi buscar num vilarejo italiano da Lombardia a
chave para uma droga capaz de aumentar as taxas de HDL,
o bom colesterol. Os habitantes da cidade tinham um tipo
de HDL tão eficiente que raramente apresentavam doenças
do coração. "Imaginamos, então, que essa pequena
população tinha uma alteração genética capaz de limpar
rapidamente as artérias, eliminando o mau colesterol",
conta ele. Dito e feito. O estudo deu origem a um
super-HDL sintético, que se encontra em fase de testes,
com resultados bastante positivos. Se tudo der certo,
essa substância poderá substituir as estatinas na
prevenção de males cardíacos. Nissen é um
revolucionário.
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Fotos J. Miranda e
divulgação
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